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Definições do Reinado do Dragão Lyoto Machida

A comemoração não demorou muito. Ainda há muito trabalho a ser feito, e o recém coroado Lyoto Machida sabia disso. Ele já não era mais o caçador. Lutando a seu modo até o combate pelo cinturão, quando ele nocauteou Rashad Evans em maio para se tornar o campeão dos meio-pesados do UFC, Lyoto tornou-se o caçado.

"Você se torna o alvo, mas é para isso que eu treino", ele disse. "Eu quero ser o alvo, eu gosto do desafio e treino muito duro para isso”.

Muitas pessoas não gostariam de ser o homem que todos os lutadores da talentosa e rica divisão meio-pesado do UFC – incluindo o desafiante deste sábado, Mauricio "Shogun" Rua - querem derrubar. Mas Lyoto não é como todo mundo, e sua capacidade de romper com a normalidade, tanto dentro como fora da Octagon, fez dele um requisitado astro do UFC.

"Existe uma série de entrevistas e muito mais fãs", disse Machida sobre sua transição de desafiante para campeão. "Mas o lugar onde eu treino não é aberto para as pessoas e eu mal tenho atendido o meu celular, eu só atendo os amigos ou familiares. Fora isso eu vivo a vida como antes”.

Embora nem sempre tenha sido assim para Lyoto no UFC. Na verdade, parecia que os fãs e a mídia nunca tinham dado importância ao brasileiro de calma sinistra, atitude quieta e um estilo de Karatê pouco ortodoxo. Mas, a partir de sua apresentação Rameau Sokoudjou no UFC 79, os fãs começaram a observá-lo. O movimento ficou ainda maior quando ele derrotou Tito Ortiz e Thiago Silva um após o outro. E quando ele parou Evans, ficou muito difícil você encontrar alguém que não fosse fã de Lyoto Machida.

"Estou muito feliz com isso", disse ele. "O feedback dos fãs mostra que eu estou fazendo um bom trabalho. Mas eu não fiquei surpreso por ele, eu sabia que, melhorando a cada luta, um dia iria acontecer. Eu luto para agradar os fãs, para defender a minha bandeira, meu nome e minha família. O respeito dos fãs é uma resposta ao meu bom trabalho".

Porém é agora que começa a parte mais difícil, ao aumentar o seu número de fãs, manter sua invencibilidade intacta e o título afivelado na cintura.

"Eu acredito que será sempre difícil, mas eu não penso sobre isso, eu não estou preocupado", Lyoto afirmou. "Concentro-me no dia-a-dia, e eu não estou vivendo o que tenho feito, eu vivo como se eu não tivesse feito isso. Na realidade ter o cinturão não me dá nenhuma vantagem sobre Shogun – nós vamos para a luta nas mesmas condições, seremos iguais, e esta é mais uma luta. É como se eu fosse ganhar o título novamente, tenho a mesma força de vontade e tenho treinado tão duro quanto antes de ganhar o cinturão. Eu sinto que estou indo para essa luta para ganhar o título, não só para defendê-lo."

O homem do outro lado da Octagon na noite de sábado, Shogun, quer muito o título, não só como um troféu, mas para mostrar ao mundo que o lutador que dominou o Pride por tantos anos, ainda está aqui e ainda é capaz de dominar o UFC como fez no Japão. Esse tipo de motivação é difícil de lidar, mas Machida não está medindo esforços para se certificar de que ele está preparado para tal.

"Eu assisti a várias lutas dele, para não ser surpreendido, e eu treino baseado em seu jogo", afirmou Machida. "Eu sempre vi o Shogun como um lutador agressivo e completo, e ele é bem experiente, mas eu posso encontrar algumas falhas em seu jogo."

O que os combatentes não têm sido capazes de fazer é encontrar todas as falhas no jogo de Lyoto. 15-0 durante seus seis anos como profissional, Lyoto é dominante ao ponto das pessoas não mais se perguntarem quando ele será derrotado, mas se ele será. Ele não tem enfrentado lutadores de nível questionável e você pode acrescentar os nomes de BJ Penn, Rich Franklin, Kazuhiro Nakamura, Stephan Bonnar e Vernon White à sua lista de vítimas já mencionadas acima. E ele sabia que logo seu estilo ia ser como um quebra-cabeças para os oponentes.

"Eu sempre treinei com os caras do Vale Tudo que treinavam Jiu-jitsu, Judô e Boxe, e eu sempre senti que se eu adaptasse meu estilo, ele seria eficaz também, tudo que eu precisava era uma oportunidade", ele disse.

Ele tem aproveitado todas as oportunidades até agora. Se seu admirável recorde invicto poderia ser motivo para começar a acreditar em seus feitos e perder o foco, Lyoto tem sua família, especialmente seu pai Yoshizo e seus irmãos Chinzo e Take para mantê-lo concentrado e com os pés no chão.

"Eu sempre me espelhei em meu pai", Lyoto afirmou. "Eu sempre admirei a família Gracie por tudo o que fizeram, mas meu pai sempre foi meu ídolo. Ele é aquele que me ensinou as técnicas, a doutrina, a filosofia. Meu pai não me deu o peixe, ele me ensinou a pegá-lo."

E no futuro, Machida pretende fazer a mesma coisa nos Estados Unidos com aqueles que desejarem aprender o estilo do Karatê de sua família. O lutador de Belém de 31 anos de idade também tem ido aos EUA para fazer grandes progressos na aprendizagem da língua inglesa, apenas mais um passo para o verdadeiro estrelato do "The Dragon" por aquelas bandas.

"Eu tenho estudado de todas as formas possíveis", ele disse. "Eu tenho escutado muita música americana, assistido filmes em inglês e até assistido a desenhos em inglês com o meu filho, tentando me acostumar mais. Eu acredito que é a melhor maneira de estar em contato com meus fãs, poder conhecê-los e conversar com eles, para mostrar a minha filosofia de vida, minha doutrina e minha arte. Eu acho que também posso aprender muito com os fãs."

O desejo de continuar aprendendo e se esforçando para manter algo novo – na academia, no Octagon, e na vida cotidiana – é que separa Lyoto dos outros. Alguns ganham um título mundial e estagnam, vendo o cinturão como o fim da linha. E isso é bom se era seu objetivo final. Mas para Lyoto, ganhar o título do UFC foi apenas um passo. Ainda existem desafios lá fora, metas que deseja alcançar. E só quando ele fizer tudo o que se propôs a fazer, ele estará satisfeito. No entanto, conhecendo Lyoto, sempre haverá alguma montanha nova a ser escalada.

"O que me motiva são os outros objetivos na minha vida", ele disse. "O título só deu a minha carreira um começo, e eu ainda tenho que lutar contra um monte de gente. Eu represento uma comunidade, uma arte milenar, minha família e eu quero continuar a representar isso. Este é o meu momento, e eu quero mostrar minhas técnicas e os meus valores para o mundo. Eu quero manter o meu nome na história, eu quero quebrar recordes e desafiar os desafios, porque se não há mais desafios, eu prefiro parar de lutar."